A velocidade que se tem e a que se quer ter…
A velocidade que se tem e a que se quer ter…
Claudio Feijó, psicoterapeuta
Às vezes eu acordo esquisito e fico refletindo coisas que me doem muito, mas também, por isso, sei que estou vivo. Refletir é um esporte que fazemos com os nossos pensamentos, como no jogo de frontão. Gostaria de convidar você leitor a pensar comigo o que é essa dor que tanto nos incomoda. Eu diria que a minha é a dor do desvio…do não “cumprir-me”. Ser-se quem se é, e não correr atrás da minha imagem. Ser desejante e desejado. Esta é a condição humana básica de sobrevivência, o relacional. Somos seres frágeis perante um mundo inóspito. Somos em relação, ou melhor, nos sabemos ser, sendo. E ai entra o outro e a necessidade do encontro, sempre, foi tão importante para a humanidade, que inventamos/ criamos o artifício do amor. Sim, artifício – um gostoso recurso ilusório que nos impulsiona e nos propõe uma razão de viver. Este substantivo é tênue, frágil, mas é a argamassa de nossas vidas – não só como indivíduos, como também no coletivo e com o nosso meio ambiente. Viemos a este mundo não sabendo qual seria o nosso papel nele, ou melhor a nossa função – o sentido de nossas vidas. Falar nisso me dá preguiça e enfastio, acho muito complicado pensar coisas complicadas. A questão é que sou um pouco revoltado, assim como você que me lê agora. Acho tudo injusto e sem saída. Com essa máquina de pensar que mora em mim, de vez em quando eu me torno lúcido, mas tão lúcido que fico pensando se não estou “tomado” por alguma entidade esotérica. Acho que viver é estar-no-aqui-e-agora, mas a dificuldade maior é o sentimento que me solapa nesse estágio, aparentemente tão simples, é achar que estou perdendo tempo e não estou me preparando para meu futuro ou o que vem pela frente. Quando estou vivendo o presente tenho uma sensação de estar perdendo-o-bonde. Tudo corre e o tempo fica parecendo escasso – a vida escorre entre os dedos. A maioria dos artefatos modernos, como o celular, o computador, a máquina de lavar, o fósforo, o avião, nos dão um sentido de praticidade, mas em contrapartida nos distanciam do fazer, do tomar contato direto com as coisas. O Ter tomou conta do Ser. Tenho logo Existo. A tecnologia veio para nos ajudar a ter mais tempo para viver, mas…o que aconteceu? Onde estamos querendo ir. Parece que queremos correr para o fim, temos pressa de morrer. A vida é um processo, que quanto mais lento melhor, já a morte é outro processo, que quanto mais rápido melhor. Devemos retomar a velocidade humana, que nem mais sabemos qual é, tentando aumentar os processos. Deixar a morte nos esperando bem longe. Não devemos ser vividos por esse excesso de solicitações externas, e sim devemos viver lentamente, curtidamente, onde cada gesto tenha o maior gozo de ser feito. Onde o olhar passe a ter de novo sentido. Devemos ter contato com as “coisinhas” de nossas vidas. Não devemos viver provisoriamente, devemos cumprirmo-nos . Dê-se um banho, e não tome um banho. Alimente-se e não coma. Viva a alegria e a tristeza de ser quem se é [1].
Carpe diem [2]!