Não nascemos humanos… tornamo-nos
Não nascemos humanos… tornamo-nos
Artigo escrito para o SENAC/SP Gastronomia 2009
Dizem que entre ao nascimento e a morte existe a experiência. A vida se faz através da experimentação que fazemos dela. Somos seres ativos e passivos diante de acontecimentos que acontecem à nossa volta, muitas vezes protagonistas e outras vezes coadjuvantes. Experienciar coisas e situações podem nos fazer melhores e mais enriquecidos na nossa maneira de ser.
O viver deixa marcas.
Estamos sempre entre o ser e o pertencer, isto é, num constante fluxo entre o constituir-se como pessoa e o diluir-se no grupo. Ser aceito pelos outros é fundamental para nós humanos… somos animais gregários, onde o estar em grupo é estar em segurança e quando vistos - existimos. A exemplo da nossa visão que tem seu ângulo limitado a 160 graus aproximadamente, quando estamos sós corremos o risco de ataque nos outros 200 graus, dai o encontro com o outro se faz necessário e nos trás segurança. Quando olho de frente para um semelhante, vigio o que ele não consegue enxergar em suas costas e ele ao que eu não consigo ver nas minhas.
Somos seres em relação e isso possibilita de nos sabermos ser, sendo. Seres em constante estado de acontecimento, sentimos isso quando exclamamos: ⎯ Eu não sabia, que eu sabia! Dentro de nós mora um ser que não conhecemos, e que vai se revelando aos poucos.
Nessa situação podemos imaginar o quanto de elementos podemos agregar em situações de viagens, de experimentações gastronômicas e degustação de bebidas (vale lembrar que as três devem ser feitas com moderação).
Temos um universo de possibilidades enorme a nossa volta.
Vamos falar de um fragmento desse mundo que é o da hospitalidade… aquele que acontece quando somos recebidos, aceitos e compreendidos. Sair de casa deixar o conforto e lançar-se ao desafio do novo, é uma aventura arriscada, mas emocionante. Acolhimento talvez seja a palavra mais correta para essa sensação de ter um lugar no mundo, mesmo que ele não faça parte do nosso cotidiano. Temos uma relação de troca com quem nos recebe e damos sentido a sua existência profissional e pessoal. Receber é uma arte.
O hospedeiro nos traduz o novo que ainda não conhecemos, nos ancora e nos dá segurança num espaço desconhecido. O hospede por sua vez deve entrar no mundo do outro com delicadeza e respeito. Do exercício dessa inteiração nasce a possibilidade da paz, interna e externa.
Hospitalidade é praticamente a postura contrária a guerra. Receber o outro com sua diferenças e repeitá-las é se desenvolver no agrupamento humano – é proporcionar a nossa espécie uma saída e continuidade da vida no planeta.
Nessa busca de experiências a gastronomia e a degustação de bebidas (volto a insistir…com moderação) tem um papel, também, muito importante.
Pensando que nossas vivências podem nos desenvolver, podemos imaginar que a gastronomia é uma invenção do ser em evolução. Todo animal come, inclusive nós mesmos, mas como somos seres em desenvolvimento, fazemos do comer um ato de se alimentar (escolher o quanto e o que se come dentro de uma culinária elaborada) – mas podemos não ficar só nisso… e dai nasce a gastronomia, que é a sofisticação do comer e do se alimentar. A gastronomia e a degustação são como músicas dentro do ato de comer e beber. Elas integram a delicadeza do ser com a nossa sofisticação cultural. Cada arranjo dos alimentos no prato, cada copo adequado que usamos, são como partituras. Isso vem estimular a plurissensorialidade e que como resultado amplia nossa forma de ver-e-estar no mundo. Um bom exercício para que esse estímulo aconteça é associar as formas com as cores, as texturas com os sons, os sabores com os movimentos e assim tudo com tudo, seja com alimentos ou bebidas
Fica um convite desafiador: Experimente-se!
O mundo não é como ele se apresenta, e sim como nós o experenciamos.
Claudio Feijó
Psicoterapeuta, pedagogo e que viaja na maionese.