25 de Abril de 2009

O Corpo Desgrupalizado.

Publicado por Claudio em Sem Categoria .

O Corpo Desgrupalizado - escrito para a Revista Psiquê/2009 a editar
Claudio Feijó

Este artigo é um relato de uma experiência vivida em anos de minha relação com a prática de ensino na fotografia, pois foi esse o meio que escolhi ou fui escolhido para me relacionar com a vida.

Registro aqui retalhos de pensamentos e narrativas que pude colecionar durante anos. A fotografia, como toda a linguagem, tem aspectos objetivos, técnicos, e aspectos subjetivos, por se tratar de uma expressão do nosso eu. A técnica auxilia no partejamento dessa expressão e, em decorrência, podemos nos ver e sermos vistos.

Expressar-se é desangustiante (angústia - anger, do latim: estreitamento), cria possibilidades de um equilíbrio mental saudável. Está na expressão a maneira que a vida nos toca. E o expressar-se para alguém por meio deste recurso parece ainda mais completo – temos testemunhas, temos um espelho através do qual podemos nos ver e sentir que estamos vivos.

Considerando que somos seres perceptivos, quando nascemos e à medida que vamos experimentando os mundos internos e externos, vamos encaixotando os resultados dessa fricção e conseguimos construir conceitos. Tais conceitos nos ajudam a reagir rápido aos mais diversos estímulos e facilitam a comunicação, mas de uma forma um tanto estilizada e precária de significados. Percebi no ensino da fotografia que a parte técnica era mais facilmente assimilada pelos alunos, mas quando chegávamos à questão da subjetividade quase todos se incomodavam e não conseguiam se expressar plenamente. Hoje consigo ter uma visão clara dessa situação, pois todos nós estávamos muito presos a nossas imagens pessoais, preocupados em comunicar nossas idéias – o mundo racional - num movimento de personalização. A parte que falava dos sentimentos ficava bloqueada. A preocupação com a própria imagem junto ao outro toma conta e cerceia a espontaneidade – é o aparecimento do narcisismo. A postura de querermos ser compreendidos, e conseqüentemente aceitos (às vezes somente vistos ou notados), é fundamental para o existir. Somos seres em relação e nos sabemos ser… sendo. O homem como ser acontecente (Heidegger,M.), se descobre em ação – o seu ser é revelado a ele mesmo. Isso fica patente quando, numa certa situação, vem à nossa cabeça a frase: “Eu não sabia que sabia isso!”.

A importância do outro em nossa existência é fundamental. Ancestralmente somos grupais, e isso é muito vantajoso para nós, porque o todo é maior que a soma das partes – pudemos sobreviver graças à formação desse corpo social. Temos vestígios desses arquétipos que formam o campo que nos une, a saber: bocejar, rir e coçar. Basta um começar que a ação tende a se repetir nos outros membros do grupo.

O Trabalho em Grupo

Quem trabalha com grupos sabe que temos que ter uma habilidade e uma sensibilidade muito bem desenvolvida. O grupo não é uma somatória de indivíduos ele é um novo corpo em um espaço e em um tempo. Temos que saber lidar com o imprevisível e com o emergente. Todo trabalho com grupo tem o seu aspecto manifesto e o seu aspecto latente. De início temos que formar o campo de desenvolvimento grupal, isto é, constituí-lo. Geralmente usamos técnicas de aquecimento inespecífico, não ligados ao tema que pretendemos trabalhar. É ai que entra o corpo, é preciso estar em contato com o presente, com o aqui-e-agora.

O pêndulo

Não gosto de apresentações pessoais porque trazem uma imagem preparada do participante, muitas vezes faço essa apresentação no último dia de trabalho, e ai as coisas tem outro significado. No início uso as técnicas grupais que possam constituir o campo, e como ilustração, cito abaixo alguns exercícios:

Roda de mãos: Peço a para que todos façam uma roda de mãos dadas, e que guardem bem quem está ao seu lado direito e esquerdo. Daí desfazemos a roda e ficamos andando pelo ambiente, como num passeio. Num certo momento chamo-os para o centro da sala e que formem uma espécie de tronco, todos bem juntos corpo-a-corpo. Em seqüência eles deverão, sem sair dos seus lugares, dar as mãos como estavam na roda inicial e tentarem desfazer os nós sem desatar as conecções das mãos. Esse exercício é ótimo e leva os seus participantes a perceberem que se a questão não estiver plenamente resolvida para todos (a roda refeita) não estará para ninguém. Aqui a idéia de grupo e indivíduo se fundem.

Estados proxêmicos – as distâncias e as emoções
Quando pensamos no indivíduo em relação, temos que considerar os corpos em relação – qual é o afeto que cada distanciamento trás a cada um dos indivíduos dessa composição. As vezes estamos tão perto, mas estamos tão longe e outras vezes estamos tão longe e nos sentimos tão perto. Para que essas emoções sejam vivenciadas uso um exercício que se parece com uma dança junina – a quadrilha – peço que duas fileiras sejam formadas onde os participantes aos pares fiquem a
10 metros uns dos outros e aos passos convido-os para irem se aproximando. Na consigna peço que na distância em que estão, percebam seus corpos e depois entrem em contato com o parceiro. Exploramos todos os sentidos, incluindo o sinestésico, o bárico e o térmico. O importante nessa prática é que sentimos os campos produzidos pelas sensações das distâncias.
(as fotos podem ilustrar o artigo)

O Corpo e Memória
Desenvolvendo o trabalho das Oficinas de Descondicionamento do Olhar notei que grande parte do nosso repertório para a leitura visual esta no corpo, inscrito, impregnado. Proponho que as pessoas leiam as imagens só de primeiro olhar e depois sugiro que fiquem na posição corporal do fotografado. Logo após momentos de silêncio e de instrospeccção peço que as pessoas percebam e tonifiquem as posturas imitadas sugeridas na imagem. Aos poucos elas voltam dessa viagem interna e começam a falar de como vêem a imagem, agora vivenciada. A experiência é incrível. A leitura amplia e toca fundo. Um outro exemplo que me lembro é de quando dirigi uma escola de ensino fundamental na Granja Vianna/Cotia.
Tínhamos aulas de culinária com os pequenos de 3 à 6 anos e reparei que quando executavam as receitas, muitas vezes se perdiam na ordem de colocar os ingredientes. Pensei: — Vou escrever as receitas no corpo desses pequenos.
Dai, enquanto eu explicava como fazer uma pizza, por exemplo, eu pedia a quem quisesse para eu fazer nele primeiro. Colocava-o no colo, em posição de quem vai apanhar nos fundilhos, e começava a amassá-lo, fingia que colocava farinha, água, sal, açúcar, óleo e fermento – e por último agitava-os bastante Omo se tivessem assando…e isso acabava numa prática real de grandes padeiros e com os seus produtos comestíveis e gostosos.

Falar em primeira pessoa – ouvir a própria voz
Gosto de estabelecer alguns parâmetros para a prática grupal. Uma prática mágica é o instituir que os participantes, quando narrarem as percepções vivenciadas, façam-nas em primeira pessoa. Não devem usar: a gente…você, quando estão se referindo a sua própria pessoa e outros vícios de linguagem. Evito, também, colocações escapistas, como: eu acho…etc. Uso bastante da linguagem assertiva.

Desenho Tátil

Esse é um exercício simples, mas muito rico no conteúdo que trás na reflexão feita pelo grupo, após a sua execução. Em um saco vazio é colocado um objeto que de preferência não seja prontamente reconhecido pelo experimentador. A ilustração prática dessa atividade é o como buscamos atribuir conceitos as coisas dando pouca chance a nossa percepção. A busca da identificação dos conceitos encurta as possibilidades de amplificação do significado das coisas. O ficar buscando acaba criando um simbólico no objeto e dão a ele a possibilidade de causar. O simbólico junta, agrega, contém-em-um já o diabólico divide, fragmenta. Uma curiosidade interessante é de como as pessoas querem ver o objeto após o exercício, querem saber o quão capazes e competentes foram de desenhar o objeto na sua semelhança, fazendo dessa forma mostram que acreditam na supremacia da visão sobre os outros sentidos. Acabo explicando que todos fizeram competentemente o desenho e que ali aparece não a técnica, mas a percepção que cada um teve do objeto. Não mostro o objeto em nenhuma circunstância para que não haja comparações e conseqüentemente competições.
Roda Cega – desaparece o corpo e o grupo emerge num só organismo – Onde o todo é maior que a soma das partes.

O Corredor Polonês
Todo trabalho em grupo, principalmente os mais longos, tipo dois dias, é interessante que se desfaça o campo que se formou, isso ajuda na apropriação individual, dos ganhos que todos tiveram em conjunto. Como num “lava-rápido” cada participante, de olhos fechados, passa no meio de um corredor feito pelo grupo que poderá se relacionar com o passante de alguma forma, seja por toque, fala, sonoridade e o que achar que deva deixar marcado nessa relação pessoa-pessoa. É um exercício forte e só deverá ser aplicado por coordenadores experientes e em trabalhos que isso pode ter sentido.
No final de cada exercício ou no final de um grupo de técnicas, é imprescindível que façamos um momento de troca das experiências vividas por cada um, ai acontece o caminho que as vivências proporcionam – o conhecimento se torna sabedoria.
Esse momento é também de amplificação das vivências e trás o tom de humanidade e ajuda a tecer a malha humana.

Quem somos nós? ou — O quanto somos nós?

A Antroposofia nos traz a idéia de que uma parte nossa está fora de nós mesmos, no mundo externo. Consumimos diariamente de 15mil a 20mil litros de oxigênio, aproximadamente dois litros de água e um quilo de comida. Esses elementos fazem parte de nós, são nosso corpo externo. Isso vale também para o aspecto social, o outro marca e demarca a nossa existência. Principalmente o olhar do outro lançado sobre nós. Não nascemos humanos, tornamo-nos humanos. É aqui que entra a importância do corpo grupal. O paradoxo do sentimento de ser e pertencer cria um ciclo, a exemplo de nossa fisiologia na ação de recolher e expandir – a sístole e a diástole cardíaca. Há momentos de ser e momentos de pertencer, de diluir-se no todo – ser criatura. Essa criatura é naturalmente expressiva e espontânea, mas durante o passar de sua existência vai se tornando rígida, reprimida e neurótica. O pertencer foi trocado pela massificação destruidora e comprometida com a ideologia dominante – de anulação e despersonalização. Temos de sair da postura de marionetes - movidos por cordões que nos controlam de fora para dentro - e passarmos à posição de fantoches (a diferença aqui é de que este é controlado pela própria mão que assume o controle interno – I by my self), onde sejamos autores de nós mesmos, protagonistas de nossas próprias vidas.

O protagonismo é libertário, traz um sentido de responsabilidade e isso nos constitui como indivíduos, indivisíveis e íntegros. Corpo e alma habitantes do mesmo ser.
Em nosso mundo interno criamos impressões de nós mesmos e nos percebemos como achamos-que-somos, como achamos-que-não-somos e com o que gostaríamos-de-ser, mas recebemos uma influência muito grande do que os outros acham que somos e do que gostariam que fôssemos. O grupo é o cenário onde conseguimos nos saber, nos conhecer. Nos outros vivemos nossas outras faces.

O corpo transforma a mente, que transforma o corpo…

Com certeza a conceituação dos objetos, dos sentimentos, das sensações etc. trouxe-nos a possibilidade de entender a nós mesmos e de nos comunicarmos com os outros. Porém, existe um equívoco fundamental. Muitas vezes conceituamos sem termos vivenciado a situação – a isso chamamos de “pré-conceito”. Logicamente existem situações especiais, como a morte, por exemplo, em relação à qual não temos condições de ultrapassar a pré-conceituação.

Um aspecto que parece contraditório é que quando vivemos em grupo e interagimos com ele potencializamos as experiências e podemos, muitas vezes, adquirir conceitos sem ter que experimentá-los. Isso se dá num campo invisível presente por sermos da mesma espécie. O outro instaura a possibilidade do nosso feedback, isto é, da nossa realimentação. O que você está vendo e percebendo de mim aí fora?

Anos atrás, quando dirigia uma escola infantil, fui fotografar um menino que estava no páteo. Naquele momento ele se virou de costas, abaixou as calças e pediu para eu fotografá-lo. Eu, surpreso, perguntei por que ele queria que eu o fotografasse daquela forma. E ele me respondeu prontamente: Eu nunca vi as minhas costas! Neste caso ele tinha a percepção desta parte de seu corpo, mas não tinha formado o conceito. Percebi, então, o quão distante estamos de nós mesmos. Usando um termo bem apropriado, senti que era preciso buscar o foco, juntando percepção e conceito. Era preciso possibilitar aos indivíduos e a mim mesmo um estar no mundo mais pleno, menos fragmentado.

Acho que aqui vale lembrar da busca do nexo psicanalítico, que propõe o alinhamento do pensamento, com o sentimento e com a ação.

Finalmente e infelizmente tenho observado que cada vez mais perdemos o nosso senso arquetípico de grupo e ficamos voltados em olhar nossa imagem como retrato do mundo. Vivemos sós, apesar de rodeados de um fundo cheio de apelos vazios. Nosso corpo pede socorro, precisa ser delimitado pelo grupo, recebido, amparado, afagado…Sem o grupo humano não existimos. Como no filme Into the Wild (2007, do Diretor Sean Penn) o protagonista, grava num painel de madeira, algo assim como: A felicidade só existe se compartilhada.

Claudio Feijó, é pedagogo, psicólogo clínico e fotógrafo; foi um dos fundadores da Escola de Fotografia Imagem-Ação; tem vasta experiência na área de ensino (como professor, diretor, orientador educacional e colaborador); tem trabalhos fotográficos na Polaroid World Collection , na Coleção Masp-Pirelli, na Fototeca Cubana, além de em diversas coleções particulares; ainda na área de fotografia, foi premiado pelo Banco Real/ Fundação Roberto Marinho e com a Bolsa Marc Ferrez/Funarte; tem coordenado as Oficinas Descondicionamento do Olhar desde 1986, por todo o país, nas mais diversas áreas de atuação (corporativa, educacional e de criação); Cursos de Aperfeiçoamento - Psicologia Social nas Organizações - no Instituto Sedes Sapientiae e de Abordagem Gestáltica em Trabalhos Grupais - no Instituto Gestalt de São Paulo.
claudio@olhar.com.br
site: www.olhar.com.br

Uma resposta

RSS | Link desta publicação

  1. Google-TCW disse,
    10 de Setembro de 2009 @ 07:39

    Hi from google Google-TCW

Deixe uma resposta

:mrgreen: :neutral: :twisted: :shock: :smile: :???: :cool: :evil: :grin: :oops: :razz: :roll: :wink: :cry: :eek: :lol: :mad: :sad: